quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Desejo x Demanda

Viver sem paixão é um marasmo. É deixar a vida escorrer pelos dedos sem fazer nenhum esforço. É inibir a pulsão de vida que grita. É o medo do descontrole.
Viver sem paixão é mais tranquilo, mais confortável. E quando pensamos que na contemporaneidade o erotismo tem sido regido pelo imperativo do gozo, como diz Maria Rita Kehl(2001), pelas leis de mercado e pelo apelo publicitário, fica patente que outras coisas estão "valendo" mais que o desejo, ficando este abafado, tamponado para que não cause nenhum desconforto.
Além disso, como pontua Kehl, é uma erótica circundante em torno de imagens de completude traduzidas em corpos atléticos, belos e perfeitos; como também "uma erótica da plena visibilidade, espetacular."
Nossos sujeitos "pós-modernos" obstinados ao exibicionismo, ao culto das imagens espetaculares têm verdadeira repulsa à falta e à ausência e tedem a trasnformar o objeto em mercadoria, assim substituindo o desejo (simbólico) pela demanda (imaginária) ou pela necessidade (Kehl, 2001).
As relações ganham caráter de superficialidade... Estar com alguém não encarna mais o desejo de se estar junto, mas a necessidade que se tem de estar com alguém que, de alguma forma, tampona as demandas mais imediatistas, mais líquidas, aquelas que ficam na superfície da comodidade, do tranquilo aterrorizante, do confortável, da plena segurança tão sonhada (mas imaginária)...
Todavia, sair desse cenário morbidamente tranquilo é dar vazão aos riscos. É reconhecer que na vida não há garantias... Sabendo que o novo, o inesperado, o desconhecido é o que mais incita o sujeito a viver desejantemente e apaixonadamente! O velho, o monótono não inspira nada, apenas atrofia a exuberâcia de ser e se reconhecer faltante. Visto que é a falta que mobiliza o desejo.
Com isso, para mim, o desejo justifica... Justifica o ato criativo, justifica o desejo que tenho pelo desejo do outro. É possível sim viver apaixonadamente por cada detalhe da vida, pela elegância das relações, pelo outro que desperta desejo...
Roseane Farias

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